domingo, novembro 15, 2020

Homenagem 2020 - Donald Francis McKenzie

 

O prêmio Leandro Müller de Literatura a cada ano reflete mais a influência de obras em minha vida, tendo laureado frequentemente nos últimos anos autores que não fazem propriamente ficção. Mas bons livros de não-ficção podem ser literários e, até mesmo, poéticos. Certos conceitos podem e devem ser expandidos. Mais do que nunca precisamos de novas estéticas, novos modos de ver o mundo.

Há 20 anos trabalho com mercado editorial, pesquiso e trabalho com livros, talvez minha maior paixão. O prêmio deste ano vai para um autor que alargou significamente o conceito sobre “texto”, esse tema tão central na minha vida, definindo-o assim: “Defino ‘texto’ de modo que inclua dados verbais, visuais, orais e numéricos, em forma de mapas, impressos e música, de arquivos de registros de som, de filmes, vídeos de qualquer informação conservada em computador, tudo, na verdade, da epigrafia às últimas formas de discografia.” (MCKENZIE, Donald Francis, Bibliografia e Sociologia dos Textos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2018. p.26)

Minha matéria prima favorita é o "texto". Qualquer seja a forma em que ele se me apresente. Achamos que amamos filmes, música, livros... quando, na verdade, nós amamos textos... e desde tempos ancestrais, em que nos eram transmitidos oralmente ao redor de fogueiras.

Por ampliar meus horizontes na busca da essência do que é um texto, Donald Francis McKenzie recebe minha homenagem neste ano de 2020.


Laureado 2020 – Pierre Bayard

 

Fui acompanhado durante anos por um livro chamado "Como falar dos livros que não lemos". Foi minha grande obsessão em meu período de livreiro. Ironicamente, sem o ler, não hesitava em recomendá-lo e discorrer sobre ele. No fundo, era como eu o conhecesse, como se o tivesse lido.

Finalmente este ano o li, apesar dos preconceitos óbvios ao seu entorno, seu aparente ataque à educação letrada, quase uma ofensa à nós leitores que valorizamos o ato de ler. Fui absolutamente surpreendido com o que encontrei ali, pois parti do pressuposto que encontraria um almanaque de truques e atalhos para aparentar sabedoria, quando na verdade, o que está em cheque é o próprio ato da apreensão do texto. Isso fica evidente nas categorias de livros não lidos que o autor apresenta:

  1. Os livros que não conhecemos
  2. Os livros que folheamos
  3. Os livros que ouvimos falar
  4. Os livros que esquecemos (afinal, se você não se lembra mais de um livro que leu, que relevância terá ele em sua memória?)

Considero este um dos livros mais importantes na minha formação tardia. O ato de leitura e interpretação é complexo e há inúmeras formas de ler um livro hoje em dia. Não podemos desmerecer outras modalidades de leitura apenas em detrimento da leitura clássica linear do livro impresso. O importante é saber como articular os pensamentos que se apresentam nas ideias. Mais importante do que conhecer muitos idiomas, é saber o que dizer em cada uma dessas línguas.

Evidentemente, uma leitura estruturada, fruto de séculos de construção, talvez ofereça vantagens ao seu leitor... mas precisamos ter em mente que não é a única forma.

Assim, por me fazer compreender que ler é um exercício contínuo da manutenção das histórias vivas dentro de nós, Pierre Bayard recebe os louros do Prêmio Leandro Müller neste ano de 2020.

domingo, dezembro 08, 2019

Homenageado 2019 - Dersö Kosztolányi

Campos de Carvalho afirmava que a Bulgária não existe. Pois digo que a Hungria também não. O Paulo Rónai tentava desmentir, publicando antologias de contos húngaros (e conseguia colocar nela mais de 30 escritores húngaros).

Este ano conheci a literatura do Kosztolányi e fiquei amigo de Kornél Esti (como outrora fiquei amigo do Arturo Bandini). Simplesmente impossível acreditar que exista literatura assim. Nem mesmo lendo, pois nada há de mais enganador neste mundo que nossa própria opinião.

Por me fazer duvidar de mim (como nem Descartes conseguiu), Dersö Kosztolányi recebe minha homenagem neste ano de 2019.

Laureado 2019 - Não houve vencedor

Pela segunda vez na história do Prêmio Leandro Müller de Literatura, não teremos um escritor laureado. As razões são similares às da primeira vez: o primeiro ano do doutorado.

Deixo como sermão a mim mesmo, e lembrança de dar ouvido aos bons conselhos, que certa feita meu amado mestre e professor Ivair Coelho me deu: "Não deixe a universidade atrapar seus estudos, rapaz."

quarta-feira, novembro 14, 2018

Homenageado 2018 - Robert Musil


"Agora, este momento de agora, é tudo que existe.
Qualquer livro sobre felicidade dirá para estabelecer metas claras do que quer conquistar e para se esforçar para conquistá-las. O problema é que isso não funciona.
Você pode se tornar um milionário aos 40 anos, mas então, perceber que não conseguiu ter um relacionamento feliz. Ou quando não dá certo, você se sente perdido e se culpa. Quando vivemos pelos objetivos, esquecemos de viver o agora.
O filósofo Alan Watts afirmou que, ao ouvir uma música, não se vai para o fim dela porque é onde tudo se encaixa. Não se lê o último capítulo de um livro, porque é o clímax. Mas, na vida, ficamos obcecados pelos fins. Estudar para as provas, entrar naquela universidade, conseguir aquele emprego, progredir na carreira, para quê? Aos 50 anos, conseguimos um cargo e pensamos: "É isso? Foi para isso que trabalhei?"
Assim, esquecemos que a vida deveria ser mais como uma música. E nós deveríamos dançar!"
Derren Brown: Miracle (2016) (Netflix, 00'50'' a 02'00'')

Por nos deixar um livro sem fim, metafórica e literalmente, e nos lembrar que não são os fins que importam, minha homenagem em 2018, Robert Musil.

Laureado 2018 - Yuval Noah Harari


Aqui deveria entrar um texto onde digo porque ou como “Sapiens” e “Homo Deus” me influenciaram este ano. Porém, ainda não sou capaz de apontar as profundas estruturas do meu ser que se desestruturaram.

Por ter escrito o livro que desejei ter escrito. Por ter escrito o livro que sempre desejei que fosse escrito! Obrigado por me lembrar que, antes de tudo, prefiro ser leitor. Por favor, Yuval, aceite esta humilde láurea no ano de 2018.