Obrigado, Ágota, por este ano tão especial.
O prêmio Leandro Müller de Literatura é IMPOSTO todos os anos no dia 14 de novembro. O objetivo de tal premiação é única e exclusivamente a expressão pessoal do reconhecimento da influência da literatura dos agraciados em meus próprios escritos. Essa premiação não acarreta em nenhum outro benefício senão minha admiração e respeito. E, por ser um prêmio promulgado, no qual os vencedores sequer tomam ciência de serem-no, não há possibilidade de recusa.
sexta-feira, novembro 14, 2025
Homenageado 2025 - Ágota Kristóf
Laureado 2025 - Jonathan Franzen
quarta-feira, novembro 20, 2024
terça-feira, novembro 14, 2023
Homenagem 2023 – Ariano Suassuna
Um erudito dos conceitos, também entendedor das técnicas,
que soube ser sábio de forma simples. Embora vaidoso, não foi arrogante, e
compartilhou com simplicidade seus conhecimentos do mundo. Com leveza e graça! (e que presença! que entrevistas fanstásticas!)
Por nos indicar a possibilidade de um olhar farsesco para as
agruras da vida, Ariano Suassuna recebe minha homenagem em 2023.
Laureado 2023 – Paulo Henriques Britto
A tradução literária é para mim um destes livros como A arte da Guerra ou O Príncipe: pode se aplicar a quase qualquer coisa. Independentemente de seu tema principal, se lido com o olhar certo, pode facilmente ser aplicável ao aconselhamento do viver melhor, um guia de saúde ou até mesmo um manual de negócios.
Sua camada primeira, autoexplicável pelo título, versa sobre a experiência de traduzir literatura. O autor apresenta diversas correntes de pensamento, mas sem medo de se posicionar e, tão raro hoje em dia, argumentando loquazmente os porquês de sua posição.
Ao longo do texto outras camadas se depreendem e sua principal lição é que a tarefa do tradutor “é em última análise, inatingível”, e mesmo assim, este deve, ciente de sua impotência, dar o melhor de si para alcançar o impossível. Como nas Utopias de Quintana:
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”
Assim, por renovar minha inspiração no almejar o melhor que posso, Paulo Henriques Britto recebe meus louros nesse ano de 2023.
sábado, novembro 12, 2022
Homenageado 2022 – José Cândido de Carvalho
Atualmente, poucos são os livros que me pegam pela escrita, pelas construções das frases e colocação das palavras nos lugares precisos. Com frequência, esqueço que histórias podem ser contadas à esmo, sem a preocupação de nos levar a alguma parte. A melhor viagem é a que fazemos no interior de nós mesmos, cujo ponto de chegada é o mesmo que o de partida.
Pelos momentos de passeio tranquilo comigo mesmo, José Cândido de Carvalho recebe minha homenagem em 2022.
“Então, anos de serenata e farreagem poliram a patente de Ponciano de Azeredo Furtado. Foi ocasião em que montei barba na cara. Em viagem especial cheguei ao Sobradinho para requerer consentimento do meu avô. Refestelado na cadeira de couro, o velho despachou o pedido do neto acompanhado de conselho:
— Saiba o capitãozinho que duas coisas de principal um homem deve ter. Barba escorrida e voz grossa.”
(Capítulo 2, O coronel e o lobisomem)
Laureado 2022 – John B. Thompson
Essencialmente, As guerras do livro era a pesquisa que eu desejava ter apresentado como tese de doutorado. Thompson conseguiu fazê-lo de forma muito mais brilhante, liberando-me assim para pensar as batalhas nacionais, mais adequadas ao meu modesto tamanho intelectual – embora ainda demasiado pretencioso.
Por fornecer-me munição para as longas batalhas que ainda preciso enfrentar, John B. Thompson recebe meus louros neste ano de 2022.
segunda-feira, novembro 15, 2021
Homenageada 2021 - Ayn Rand
Sempre acreditei que a escrita (e a arte em geral) deveria
ser feita como uma reflexão sobre o mundo, sobre uma questão que pessoalmente
toca o artista, um dilema ambíguo, mas não necessariamente para fornecer uma
resposta. A colocação do problema é o coração da arte. Ainda que esse problema seja
nos entreter.
Escolher a literatura para defender uma ideologia, pode ser polêmico, e de fato esta autora foi. E não é preciso concordar com ela para reconhecer que construiu uma impressionante obra. É como um marceneiro que admira a estrutura de um patíbulo: o enforcamento é bárbaro, mas o mecanismo é engenhoso.
Por demonstrar que ainda é possível pensar por meio literatura e defender seus argumentos com uma boa narrativa, Ayn Rand recebe a homenagem do Prêmio Leandro Müller de Literatura em 2021.
Laureado 2021 – Cixin Liu
Por estes dias, deparei-me com um produto alimentício que trazia
em letras garrafais na embalagem: “baixo valor energético, isento de açúcares,
zero lactose, livre de gordura totais, livre de gorduras saturadas, zero
colesterol, não contém sódio, sem adição de sal”. Imediatamente fui remetido
aos tempos de estudante de filosofia, não podendo deixar de pensar no velho Parmênides
quando dizia: “o ser é, o não ser não é”. Afinal, o que era esse produto
alimentício que se afirmava apenas pelo seu não-ser? O que ele continha, apesar
de se vangloriar principalmente por aquilo que não tinha? E lembrei-me de que,
muitas vezes, quando não sabemos o que algo é, começamos por entendê-lo a
partir do que não é.
O fluxo de pensamentos passou a Sócrates e a sabedoria atribuída a ele: “conhece-te a ti mesmo”. E algumas coisas começaram a fazer sentido. Se eu não sei quem sou, por eliminação, posso procurar quem são os outros, que seguramente não são eu. O caminho é mais íngreme, mas, quando não se sabe para onde rumar, ao menos é um caminho.
A afirmação de si pela negação do outro é um antigo e estimado tema dos contadores de histórias. Nós versus os outros. Geralmente envolvendo dilemas colossais e problemas insolúveis. Ou quase insolúveis, pois há um velho truque maroto que resolve essa trama: o inimigo em comum.
Quem olha de relance, pode ser levado a crer que a trilogia do Problema dos 3 Corpos se resolve assim. Porém, o que enxerguei ali foi o nós versus nós, a humanidade como o maior problema de si mesma, simplesmente pelo fato de não se reconhecer enquanto um todo, enquanto uma espécie humana. Daí desdobram-se alegorias sem fim sobre o mundo atual, os nacionalismos e regionalismos, a polarização extrema de grande parte das sociedades. E só seremos humanos quando houver não humanos que nos sirvam de cotejo.
Em tempos de polaridade e intolerância, por relembrar que a humanidade só se reconhecerá como um todo quando conhecer O Outro, Cixim Liu recebe a máxima láurea do Prêmio Leandro Müller em 2021.
domingo, novembro 15, 2020
Homenageado 2020 - Donald Francis McKenzie
O prêmio Leandro Müller de Literatura a cada ano reflete mais a influência de obras em minha vida, tendo laureado frequentemente nos últimos anos autores que não fazem propriamente ficção. Mas bons livros de não-ficção podem ser literários e, até mesmo, poéticos. Certos conceitos podem e devem ser expandidos. Mais do que nunca precisamos de novas estéticas, novos modos de ver o mundo.
Há 20 anos trabalho com mercado editorial, pesquiso e trabalho com livros, talvez minha maior paixão. O prêmio deste ano vai para um autor que alargou significamente o conceito sobre “texto”, esse tema tão central na minha vida, definindo-o assim: “Defino ‘texto’ de modo que inclua dados verbais, visuais, orais e numéricos, em forma de mapas, impressos e música, de arquivos de registros de som, de filmes, vídeos de qualquer informação conservada em computador, tudo, na verdade, da epigrafia às últimas formas de discografia.” (MCKENZIE, Donald Francis, Bibliografia e Sociologia dos Textos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2018. p.26)
Minha matéria prima favorita é o "texto". Qualquer seja a forma em que ele se me apresente. Achamos que amamos filmes, música, livros... quando, na verdade, nós amamos textos... e desde tempos ancestrais, em que nos eram transmitidos oralmente ao redor de fogueiras.
Por ampliar meus horizontes na busca da essência do que é um
texto, Donald Francis McKenzie recebe minha homenagem neste ano de 2020.
Laureado 2020 – Pierre Bayard
Fui acompanhado durante anos por um livro chamado "Como falar dos livros que não lemos". Foi minha grande obsessão em meu período de livreiro. Ironicamente, sem o ler, não hesitava em recomendá-lo e discorrer sobre ele. No fundo, era como eu o conhecesse, como se o tivesse lido.
Finalmente este ano o li, apesar dos preconceitos óbvios ao seu entorno, seu aparente ataque à educação letrada, quase uma ofensa a nós leitores que valorizamos o ato de ler. Fui absolutamente surpreendido com o que encontrei ali, pois parti do pressuposto que encontraria um almanaque de truques e atalhos para aparentar sabedoria, quando na verdade, o que está em xeque é o próprio ato da apreensão do texto. Isso fica evidente nas categorias de livros não lidos que o autor apresenta:
- Os livros que não conhecemos
- Os livros que folheamos
- Os livros que ouvimos falar
- Os livros que esquecemos (afinal, se você não se lembra mais de um livro que leu, que relevância terá ele em sua memória?)
Considero este um dos livros mais importantes na minha formação tardia. O ato de leitura e interpretação é complexo e há inúmeras formas de ler um livro hoje em dia. Não podemos desmerecer outras modalidades de leitura apenas em detrimento da leitura clássica linear do livro impresso. O importante é saber como articular os pensamentos que se apresentam nas ideias. Mais importante do que conhecer muitos idiomas, é saber o que dizer em cada uma dessas línguas.
Evidentemente, uma leitura estruturada, fruto de séculos de construção, talvez ofereça vantagens ao seu leitor... mas precisamos ter em mente que não é a única forma.
Assim, por me fazer compreender que ler é um exercício
contínuo da manutenção das histórias vivas dentro de nós, Pierre Bayard recebe
os louros do Prêmio Leandro Müller neste ano de 2020.
domingo, dezembro 08, 2019
Homenageado 2019 - Dersö Kosztolányi
Este ano conheci a literatura do Kosztolányi e fiquei amigo de Kornél Esti (como outrora fiquei amigo do Arturo Bandini). Simplesmente impossível acreditar que exista literatura assim. Nem mesmo lendo, pois nada há de mais enganador neste mundo que nossa própria opinião.
Por me fazer duvidar de mim (como nem Descartes conseguiu), Dersö Kosztolányi recebe minha homenagem neste ano de 2019.
Laureado 2019 - Não houve vencedor
Deixo como sermão a mim mesmo, e lembrança de dar ouvido aos bons conselhos, que certa feita meu amado mestre e professor Ivair Coelho me deu: "Não deixe a universidade atrapar seus estudos, rapaz."


















