sexta-feira, novembro 14, 2025

Homenageado 2025 - Ágota Kristóf

 Há muitos anos não lia algo tão original. Em tempos de fragmentação, inclusive do ser, a leitura da Trilogia dos Gêmeos (e de A Analfabeta) provocou uma sensação de unificação pessoal, uma concentração e foco que recentemente julgava ter perdido para sempre.

Obrigado, Ágota, por este ano tão especial.

Laureado 2025 - Jonathan Franzen

Por relembrar que a grandeza literária não está na escolha dos temas, mas na forma pela quais eles são contados.

terça-feira, novembro 14, 2023

Homenagem 2023 – Ariano Suassuna

Aos incautos, as peças de Suassuna podem parecer apenas divertidas, mas é lendo o autor falando de suas obras que se nota a profundidade das situações, das personagens e das palavras escolhidas.

Um erudito dos conceitos, também entendedor das técnicas, que soube ser sábio de forma simples. Embora vaidoso, não foi arrogante, e compartilhou com simplicidade seus conhecimentos do mundo. Com leveza e graça! (e que presença! que entrevistas fanstásticas!)

Por nos indicar a possibilidade de um olhar farsesco para as agruras da vida, Ariano Suassuna recebe minha homenagem em 2023.

Laureado 2023 – Paulo Henriques Britto

 

A tradução literária é para mim um destes livros como A arte da Guerra ou O Príncipe: pode se aplicar a quase qualquer coisa. Independentemente de seu tema principal, se lido com o olhar certo, pode facilmente ser aplicável ao aconselhamento do viver melhor, um guia de saúde ou até mesmo um manual de negócios.

Sua camada primeira, autoexplicável pelo título, versa sobre a experiência de traduzir literatura. O autor apresenta diversas correntes de pensamento, mas sem medo de se posicionar e, tão raro hoje em dia, argumentando loquazmente os porquês de sua posição.

Ao longo do texto outras camadas se depreendem e sua principal lição é que a tarefa do tradutor “é em última análise, inatingível”, e mesmo assim, este deve, ciente de sua impotência, dar o melhor de si para alcançar o impossível. Como nas Utopias de Quintana:


 “Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”


Assim, por renovar minha inspiração no almejar o melhor que posso, Paulo Henriques Britto recebe meus louros nesse ano de 2023.

sábado, novembro 12, 2022

Homenageado 2022 – José Cândido de Carvalho

 

Atualmente, poucos são os livros que me pegam pela escrita, pelas construções das frases e colocação das palavras nos lugares precisos. Com frequência, esqueço que histórias podem ser contadas à esmo, sem a preocupação de nos levar a alguma parte. A melhor viagem é a que fazemos no interior de nós mesmos, cujo ponto de chegada é o mesmo que o de partida.  


Pelos momentos de passeio tranquilo comigo mesmo, José Cândido de Carvalho recebe minha homenagem em 2022.


“Então, anos de serenata e farreagem poliram a patente de Ponciano de Azeredo Furtado. Foi ocasião em que montei barba na cara. Em viagem especial cheguei ao Sobradinho para requerer consentimento do meu avô. Refestelado na cadeira de couro, o velho despachou o pedido do neto acompanhado de conselho:

— Saiba o capitãozinho que duas coisas de principal um homem deve ter. Barba escorrida e voz grossa.”


(Capítulo 2, O coronel e o lobisomem)







Laureado 2022 – John B. Thompson

 

Essencialmente, As guerras do livro era a pesquisa que eu desejava ter apresentado como tese de doutorado. Thompson conseguiu fazê-lo de forma muito mais brilhante, liberando-me assim para pensar as batalhas nacionais, mais adequadas ao meu modesto tamanho intelectual – embora ainda demasiado pretencioso.

Por fornecer-me munição para as longas batalhas que ainda preciso enfrentar, John B. Thompson recebe meus louros neste ano de 2022.

segunda-feira, novembro 15, 2021

Homenageada 2021 - Ayn Rand

 

Sempre acreditei que a escrita (e a arte em geral) deveria ser feita como uma reflexão sobre o mundo, sobre uma questão que pessoalmente toca o artista, um dilema ambíguo, mas não necessariamente para fornecer uma resposta. A colocação do problema é o coração da arte. Ainda que esse problema seja nos entreter.

Escolher a literatura para defender uma ideologia, pode ser polêmico, e de fato esta autora foi. E não é preciso concordar com ela para reconhecer que construiu uma impressionante obra. É como um marceneiro que admira a estrutura de um patíbulo: o enforcamento é bárbaro, mas o mecanismo é engenhoso.

Por demonstrar que ainda é possível pensar por meio literatura e defender seus argumentos com uma boa narrativa, Ayn Rand recebe a homenagem do Prêmio Leandro Müller de Literatura em 2021.


Laureado 2021 – Cixin Liu

 

Por estes dias, deparei-me com um produto alimentício que trazia em letras garrafais na embalagem: “baixo valor energético, isento de açúcares, zero lactose, livre de gordura totais, livre de gorduras saturadas, zero colesterol, não contém sódio, sem adição de sal”. Imediatamente fui remetido aos tempos de estudante de filosofia, não podendo deixar de pensar no velho Parmênides quando dizia: “o ser é, o não ser não é”. Afinal, o que era esse produto alimentício que se afirmava apenas pelo seu não-ser? O que ele continha, apesar de se vangloriar principalmente por aquilo que não tinha? E lembrei-me de que, muitas vezes, quando não sabemos o que algo é, começamos por entendê-lo a partir do que não é.

O fluxo de pensamentos passou a Sócrates e a sabedoria atribuída a ele: “conhece-te a ti mesmo”. E algumas coisas começaram a fazer sentido. Se eu não sei quem sou, por eliminação, posso procurar quem são os outros, que seguramente não são eu. O caminho é mais íngreme, mas, quando não se sabe para onde rumar, ao menos é um caminho.

A afirmação de si pela negação do outro é um antigo e estimado tema dos contadores de histórias. Nós versus os outros. Geralmente envolvendo dilemas colossais e problemas insolúveis. Ou quase insolúveis, pois há um velho truque maroto que resolve essa trama: o inimigo em comum.

Quem olha de relance, pode ser levado a crer que a trilogia do Problema dos 3 Corpos se resolve assim. Porém, o que enxerguei ali foi o nós versus nós, a humanidade como o maior problema de si mesma, simplesmente pelo fato de não se reconhecer enquanto um todo, enquanto uma espécie humana. Daí desdobram-se alegorias sem fim sobre o mundo atual, os nacionalismos e regionalismos, a polarização extrema de grande parte das sociedades. E só seremos humanos quando houver não humanos que nos sirvam de cotejo.

Em tempos de polaridade e intolerância, por relembrar que a humanidade só se reconhecerá como um todo quando conhecer O Outro, Cixim Liu recebe a máxima láurea do Prêmio Leandro Müller em 2021.


domingo, novembro 15, 2020

Homenageado 2020 - Donald Francis McKenzie

 

O prêmio Leandro Müller de Literatura a cada ano reflete mais a influência de obras em minha vida, tendo laureado frequentemente nos últimos anos autores que não fazem propriamente ficção. Mas bons livros de não-ficção podem ser literários e, até mesmo, poéticos. Certos conceitos podem e devem ser expandidos. Mais do que nunca precisamos de novas estéticas, novos modos de ver o mundo.

Há 20 anos trabalho com mercado editorial, pesquiso e trabalho com livros, talvez minha maior paixão. O prêmio deste ano vai para um autor que alargou significamente o conceito sobre “texto”, esse tema tão central na minha vida, definindo-o assim: “Defino ‘texto’ de modo que inclua dados verbais, visuais, orais e numéricos, em forma de mapas, impressos e música, de arquivos de registros de som, de filmes, vídeos de qualquer informação conservada em computador, tudo, na verdade, da epigrafia às últimas formas de discografia.” (MCKENZIE, Donald Francis, Bibliografia e Sociologia dos Textos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2018. p.26)

Minha matéria prima favorita é o "texto". Qualquer seja a forma em que ele se me apresente. Achamos que amamos filmes, música, livros... quando, na verdade, nós amamos textos... e desde tempos ancestrais, em que nos eram transmitidos oralmente ao redor de fogueiras.

Por ampliar meus horizontes na busca da essência do que é um texto, Donald Francis McKenzie recebe minha homenagem neste ano de 2020.


Laureado 2020 – Pierre Bayard

 

Fui acompanhado durante anos por um livro chamado "Como falar dos livros que não lemos". Foi minha grande obsessão em meu período de livreiro. Ironicamente, sem o ler, não hesitava em recomendá-lo e discorrer sobre ele. No fundo, era como eu o conhecesse, como se o tivesse lido.

Finalmente este ano o li, apesar dos preconceitos óbvios ao seu entorno, seu aparente ataque à educação letrada, quase uma ofensa a nós leitores que valorizamos o ato de ler. Fui absolutamente surpreendido com o que encontrei ali, pois parti do pressuposto que encontraria um almanaque de truques e atalhos para aparentar sabedoria, quando na verdade, o que está em xeque é o próprio ato da apreensão do texto. Isso fica evidente nas categorias de livros não lidos que o autor apresenta:

  1. Os livros que não conhecemos
  2. Os livros que folheamos
  3. Os livros que ouvimos falar
  4. Os livros que esquecemos (afinal, se você não se lembra mais de um livro que leu, que relevância terá ele em sua memória?)

Considero este um dos livros mais importantes na minha formação tardia. O ato de leitura e interpretação é complexo e há inúmeras formas de ler um livro hoje em dia. Não podemos desmerecer outras modalidades de leitura apenas em detrimento da leitura clássica linear do livro impresso. O importante é saber como articular os pensamentos que se apresentam nas ideias. Mais importante do que conhecer muitos idiomas, é saber o que dizer em cada uma dessas línguas.

Evidentemente, uma leitura estruturada, fruto de séculos de construção, talvez ofereça vantagens ao seu leitor... mas precisamos ter em mente que não é a única forma.

Assim, por me fazer compreender que ler é um exercício contínuo da manutenção das histórias vivas dentro de nós, Pierre Bayard recebe os louros do Prêmio Leandro Müller neste ano de 2020.

domingo, dezembro 08, 2019

Homenageado 2019 - Dersö Kosztolányi

Campos de Carvalho afirmava que a Bulgária não existe. Pois digo que a Hungria também não. O Paulo Rónai tentava desmentir, publicando antologias de contos húngaros (e conseguia colocar nela mais de 30 escritores húngaros).

Este ano conheci a literatura do Kosztolányi e fiquei amigo de Kornél Esti (como outrora fiquei amigo do Arturo Bandini). Simplesmente impossível acreditar que exista literatura assim. Nem mesmo lendo, pois nada há de mais enganador neste mundo que nossa própria opinião.

Por me fazer duvidar de mim (como nem Descartes conseguiu), Dersö Kosztolányi recebe minha homenagem neste ano de 2019.

Laureado 2019 - Não houve vencedor

Pela segunda vez na história do Prêmio Leandro Müller de Literatura, não teremos um escritor laureado. As razões são similares às da primeira vez: o primeiro ano do doutorado.

Deixo como sermão a mim mesmo, e lembrança de dar ouvido aos bons conselhos, que certa feita meu amado mestre e professor Ivair Coelho me deu: "Não deixe a universidade atrapar seus estudos, rapaz."

quarta-feira, novembro 14, 2018

Homenageado 2018 - Robert Musil


"Agora, este momento de agora, é tudo que existe.
Qualquer livro sobre felicidade dirá para estabelecer metas claras do que quer conquistar e para se esforçar para conquistá-las. O problema é que isso não funciona.
Você pode se tornar um milionário aos 40 anos, mas então, perceber que não conseguiu ter um relacionamento feliz. Ou quando não dá certo, você se sente perdido e se culpa. Quando vivemos pelos objetivos, esquecemos de viver o agora.
O filósofo Alan Watts afirmou que, ao ouvir uma música, não se vai para o fim dela porque é onde tudo se encaixa. Não se lê o último capítulo de um livro, porque é o clímax. Mas, na vida, ficamos obcecados pelos fins. Estudar para as provas, entrar naquela universidade, conseguir aquele emprego, progredir na carreira, para quê? Aos 50 anos, conseguimos um cargo e pensamos: "É isso? Foi para isso que trabalhei?"
Assim, esquecemos que a vida deveria ser mais como uma música. E nós deveríamos dançar!"
Derren Brown: Miracle (2016) (Netflix, 00'50'' a 02'00'')

Por nos deixar um livro sem fim, metafórica e literalmente, e nos lembrar que não são os fins que importam, minha homenagem em 2018, Robert Musil.

Laureado 2018 - Yuval Noah Harari


Aqui deveria entrar um texto onde digo porque ou como “Sapiens” e “Homo Deus” me influenciaram este ano. Porém, ainda não sou capaz de apontar as profundas estruturas do meu ser que se desestruturaram.

Por ter escrito o livro que desejei ter escrito. Por ter escrito o livro que sempre desejei que fosse escrito! Obrigado por me lembrar que, antes de tudo, prefiro ser leitor. Por favor, Yuval, aceite esta humilde láurea no ano de 2018.

terça-feira, novembro 14, 2017

Homenageado 2017 - Eric Hobsbawm

Alguns dizem que são tempos estranhos, mas prefiro crer que são tempos interessantes. O mais fascinante é que todos os tempos são interessantes, principalmente se considerarmos os processos históricos que teimam em nos convencer que as transformações as quais presenciamos podem ser explicadas pelo passado. Independentemente das críticas à historiografia, é inegável que uma obra bem construída nos dá a segurança de uma narrativa histórica confortável e imune às vicissitudes da vida. Fatos nada mais são que impertinências... a interpretação é que verdadeiramente define o mundo!


Por fornecer um recorte do mundo contemporâneo, que torna a vida mais tolerável, Eric Hobsbawm recebe minha Homenagem neste 2017.

Laureado 2017 - Michael Dobbs

Poucos desconhecem, principalmente talvez pelo Kevin Spacey, o fenômeno chamado House of Cards. Eu também o conheci assim, no Netflix. Até que alguém me disse: “sabia que a série original é britânica?”; e não tive outra opção senão procurá-la (é homônima e também está no Netflix). Mas as surpresas não pararam por aí, e após assistir a primeira temporada, descobrir tratar-se de um livro — na verdade três livros — no qual ambas as séries foram baseadas.

Não me recordo de ter lido um livro por causa de uma série ou filme, embora já tenha visto filmes cujo livro tenha lido. Esse caminho inverso me foi novo, me foi diferente, me causou um bom estranhamento. E ler a trilogia me levou a rever todas 5 temporadas da série americana e as 3 temporadas da série britânica, fazendo uma analise comparativa delas juntamente com os 3 livros. Análise profunda de crossmídia! Foi uma grande alegria encontrar uma narrativa tão forte que pudesse ser explorada de tantas maneiras, e tão bem executadas em todas elas.


E por ser a fonte original de tamanho potencial literário, Michael Dobbs recebe em 2017 esta Láurea.

Foto: By ©House of Lords / photography by Roger Harris, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=171260831

segunda-feira, novembro 14, 2016

Homenageado 2016 - Jenaro Prieto

Tenho um grande amigo mitômano. Ao menos é assim que o definiriam aqueles incautos que não percebem como a realidade pode ser enriquecida com a ficção. É como dizer que trabalho com “tecnologia de armazenamento e propagação de narrativas” para explicar que faço livros.

Este ano fiz um novo amigo, desconhecido da maioria aqui no Brasil. Não por estar morto há quase um século, mas talvez por ser chileno e ainda inédito por aqui. Passamos o réveillon juntos e, por três dias, trocamos muitas ideias.

Gostaria muito de revê-lo, mas como é preciso passar por seu “sócio” para alcançá-lo, isso acaba prejudicando o processo de reencontro.


Assim ,por me ensinar como a vida real pode ser amplamente enriquecida com pequenas (ou grandes) alterações na forma como os acontecimentos são narrados ou percebidos, Jenaro Prieto recebe minha homenagem em 2016.

Laureado 2016 - Roger Chartier

Há um grande ruído geral dizendo que 2016 foi um ano ruim. Talvez em um cenário maior realmente tenha sido, mas individualmente, 2016 me trouxe enormes alegrias. A construção de uma pós-graduação em Edição e Gestão Editorial, o novo trabalho como designer na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a continuidade das aulas no SENAI, ser agraciado em um edital para desenvolver uma série de TV, múltiplos encontros familiares, fortalecimento de amizades, a cumplicidade amorosa permanente. E a chance ter lido exaustivamente grande parte da obra do Roger Chartier, uma das maiores autoridades dos assuntos que mais estudo.

Em tempos onde o mundo parece ter enlouquecido, poder isolar-se em uma bolha é quase bênção. Encontrar vozes lúcidas e pessoas iluminadas é um grande estimulante. Quando meus alunos mais jovens me questionam sobre toda essa barbárie do mundo (no macrocenário e nas pequenas desgraças cotidianas) eu costumo responder que o mundo vale a pena por causa de 6 pessoas que iremos conhecer ao longo da vida (talvez sejam até mais). Porém, são essas 6 grandes pessoas que nos fazem ter esperança e suportar todo o resto.


Por ter feito sentido quando, uma vez mais, tudo parecia desafiar a lógica, Roger Chartier recebe minha Láurea neste ano de 2016.